Recuperações judiciais crescem 40% em Minas em um ano
Minas Gerais fechou junho de 2026 com 674 empresas em recuperação judicial, o quarto maior estoque do País, atrás de São Paulo (2.248), Rio Grande do Sul (762) e Paraná (684). Entre os grandes estados, porém, Minas foi o que apresentou maior avanço no segundo trimestre, com alta de 8,5% em relação aos três primeiros meses do ano, acima da média nacional, de 3,3%. No acumulado do primeiro semestre, o estoque de empresas em recuperação judicial cresceu mais de 22,5% e, na comparação com junho de 2025, a alta superou 40%.
Os dados são do Monitor RGF-Bizdoc, levantamento econômico periódico voltado ao acompanhamento e à análise do cenário de recuperações judiciais e da saúde financeira das empresas no Brasil. (Mais detalhes estão disponíveis no infográfico abaixo).
Aumento das recuperações judiciais eleva cautela de investidores e credores
Para o professor dos cursos de Gestão e Negócios do Centro Universitário Uni-BH, Fernando Sette, o crescimento das recuperações judiciais indica aumento do risco percebido, mas não significa, isoladamente, que a economia mineira esteja em crise.
“Minas ainda apresenta uma incidência geral de recuperações judiciais (0,24 empresas para cada mil) inferior à média nacional (0,3). O que chama atenção é a velocidade de crescimento. Isso tende a tornar investidores, bancos e fornecedores mais cautelosos na avaliação de novos projetos e na concessão de crédito”, explica.
Agro, comércio e indústria concentram recuperações
O levantamento também aponta que a agropecuária (123), o comércio (120) e a indústria de transformação (112) foram os três setores de Minas Gerais com maior número de empresas em recuperação judicial.
Fernando Sette ressalta, porém, que é preciso diferenciar os números absolutos da incidência das recuperações judiciais em cada setor.
“Comércio e indústria possuem, respectivamente, 120 e 112 empresas em recuperação judicial, mas a incidência no comércio é de apenas 0,18 por mil, abaixo da média mineira de 0,24. Na indústria, chega a 0,47. Portanto, não vejo nesses números evidência suficiente para caracterizar uma crise generalizada”, explica.
O economista acrescenta que o estresse financeiro alcança diferentes elos da economia. No comércio, segundo ele, pesam o tamanho do setor, as margens estreitas e a sensibilidade ao consumo e aos juros. Na indústria, fatores como capital de giro, investimentos, custos financeiros e condições de demanda também influenciam o cenário.
Recuperação judicial chega aos pequenos negócios
Outro dado que chama a atenção na pesquisa é o crescimento das microempresas mineiras em recuperação judicial, que aumentaram mais de 65% em 12 meses. Segundo o estudo, esse instrumento era pouco utilizado por esse grupo anteriormente.
Entre o primeiro trimestre de 2023 e o segundo de 2026, o número de microempresas mineiras em recuperação judicial passou de 36 para 175 CNPJs, crescimento de quase cinco vezes. Pequenas, grandes e muito grandes empresas apresentaram avanços menores em números absolutos. Segundo o estudo, trata-se da mesma mudança observada no País: a recuperação judicial, antes mais concentrada no middle market, passou a alcançar também a base empresarial mineira.
Para a analista de Desenvolvimento Territorial e Serviços Financeiros do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae-MG), Ariane Vilhena, o crescimento das recuperações judiciais entre as microempresas acende um alerta, já que esses negócios são fundamentais para a geração de empregos e para a economia local.
“No entanto, esse movimento não reflete apenas dificuldades financeiras. Também está relacionado à maior formalização dos empreendedores, à profissionalização da gestão e ao maior acesso à assessoria jurídica e contábil”, destaca.
Recuperação judicial busca preservar continuidade dos negócios
Em relação aos impactos desse cenário, Ariane explica que o aumento dos pedidos de reestruturação pode gerar maior cautela na concessão de crédito e na realização de investimentos. No entanto, destaca que a recuperação judicial tem como objetivo preservar empresas economicamente viáveis. Ao permitir a renegociação de dívidas e a reorganização financeira dos negócios, o mecanismo pode contribuir para a preservação de postos de trabalho e para a continuidade da geração de renda nos municípios.
“Dessa forma, mais do que representar o encerramento de empresas, a recuperação judicial pode ser um instrumento para evitar falências e dar condições para que os pequenos empreendimentos superem períodos de dificuldade e continuem contribuindo para a economia local”, diz.
No caso de Minas Gerais, a analista do Sebrae-MG aponta o agronegócio como um dos principais fatores por trás desse crescimento. Segundo ela, os produtores rurais vêm enfrentando custos financeiros elevados, oscilações nos preços das commodities e um processo de maior profissionalização da atividade, fatores que têm levado mais empresas do setor a recorrer à recuperação judicial como forma de preservar o patrimônio e manter suas atividades econômicas.
Juros altos expõem fragilidades na estrutura de capital
O sócio sênior da RGF e Bizdoc e coordenador do Monitor RGF-Bizdoc, Claudio Damasceno, afirma que a aceleração das recuperações judiciais em Minas Gerais não decorre de uma deterioração estrutural da economia do Estado.
“O que observamos é um choque conjuntural de crédito — juros elevados e maior restrição ao financiamento — que atinge com mais intensidade setores já vulneráveis. Nesse cenário, o papel das entidades setoriais torna-se ainda mais relevante. Por reunirem empresas que enfrentam desafios semelhantes, elas podem atuar de forma decisiva na construção de medidas preventivas e no fortalecimento de seus segmentos”, diz.
Por fim, ele reforça que o estudo não sinaliza uma falência da economia mineira, mas indica que o ciclo de juros revelou os pontos de maior fragilidade na estrutura de capital das empresas do Estado. “A inflexão depende de dois gatilhos: a chegada efetiva do alívio de juros ao caixa e o comportamento da safra 26/27. Até lá, a expectativa é de estoque ainda em alta, cada vez mais devagar”, conclui.
A principal fonte de dados do Monitor RGF-Bizdoc foi a Receita Federal, por meio dos Dados Abertos do Cadastro Nacional da Pessoa Jurídica (CNPJ). O levantamento considerou as informações disponíveis em 30 de junho de 2026 e identificou empresas em recuperação judicial, recuperação extrajudicial e falência.
Com informações do Diário do Comércio
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